Por Simoni Missel
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22 de setembro de 2026
Há um paradoxo comum nas empresas brasileiras: contratamos pessoas competentes, investimos na formação delas e, no dia a dia, pedimos que consultem o gestor antes de qualquer decisão. O resultado aparece em filas de aprovação, em reuniões que só existem para validar o que já estava claro e em equipes que aprendem, aos poucos, que é mais seguro esperar do que agir. Parece controle. Na prática, é dirigir com o freio de mão puxado. O gargalo não está na operação. Está na mesa do gestor. Quando todas as decisões convergem para uma pessoa, a capacidade de resposta da empresa fica limitada à agenda dessa pessoa. Pouco importa quantos profissionais existam na equipe: se cada movimento depende de um "ok", a organização passa a operar no ritmo de quem aprova. Os dados mostram o tamanho do problema. Uma pesquisa da McKinsey com mais de 1.200 gestores de empresas globais constatou que mais da metade deles dedica mais de 30% do tempo a tomar decisões, e 61% afirmam que pelo menos metade desse tempo é usada de forma ineficaz. Numa empresa típica da Fortune 500, isso equivale a cerca de 530 mil dias de trabalho de gestores desperdiçados por ano, algo próximo de US$ 250 milhões em salários. E o efeito vai além do custo. A Bain & Company acompanhou mais de mil empresas ao longo de uma década e encontrou uma correlação clara entre a eficácia das decisões (decidir bem, decidir rápido e executar o que foi decidido) e o desempenho financeiro. Em outras palavras: a forma como uma empresa decide é, ela própria, um fator de resultado. Por que a centralização persiste, mesmo quando todos sabem que ela atrapalha Ninguém centraliza por maldade. Na maioria das vezes, o gargalo nasce de boas intenções e se mantém por hábito. Alguns motivos aparecem com frequência: • O gestor foi promovido por ser o melhor técnico. Ele sabe fazer, faz rápido e, sem perceber, continua fazendo. Delegar parece mais lento do que resolver sozinho. • O erro custa caro e o acerto passa despercebido. Em culturas que punem o erro, a autonomia vira risco pessoal, e a equipe prefere devolver a decisão para cima. • As fronteiras não estão claras. Ninguém sabe exatamente o que pode decidir sozinho, então todo mundo pergunta. • Controle é confundido com responsabilidade. Muitos líderes sentem que, se não aprovarem tudo, estarão sendo negligentes. O problema é que esse arranjo cria um ciclo que se retroalimenta. O gestor centraliza porque a equipe não está pronta; a equipe não fica pronta porque nunca decide. Anos depois, a empresa tem um líder sobrecarregado e um time que executa bem, mas não pensa o negócio. Há ainda um custo menos visível. Quanto mais alto a decisão sobe, mais longe ela fica de onde o problema acontece. Quem está diante do cliente, da máquina ou do fornecedor costuma ter a informação mais atual. Quando essa pessoa precisa esperar alguém que conhece a situação só pelo relato, a decisão chega mais tarde e, com frequência, pior. Autonomia não é ausência de gestão Vale desfazer um equívoco. Dar autonomia não significa deixar cada pessoa fazer o que quiser. Autonomia sem direção gera dispersão, retrabalho e decisões desalinhadas com a estratégia. O que as empresas de alta performance fazem é diferente: deixam claros o destino, os limites e os critérios, e confiam nas pessoas para escolher o caminho dentro desse espaço. Esse também é um tema de engajamento. Nas pesquisas sobre motivação, a autonomia aparece de forma consistente como um dos principais motores do desempenho: quem tem voz sobre como faz o próprio trabalho tende a se comprometer mais com o resultado. Um estudo da Universidade de Birmingham, com dados de mais de 20 mil trabalhadores britânicos, mostrou que níveis mais altos de autonomia estão associados a maior bem-estar e maior satisfação com o trabalho. Quem decide se sente dono. Quem só executa tende a se sentir dispensável, e costuma ir embora. A própria pesquisa da McKinsey reforça o ponto: gestores que disseram ter autonomia e apoio adequados para decidir foram 3,2 vezes mais propensos a afirmar que as decisões delegadas em suas empresas eram rápidas e de alta qualidade. Delegar bem não é abrir mão da qualidade. É condição para ela. Três frentes para destravar a autonomia na sua empresa Construir autonomia é um trabalho de estrutura, liderança e cultura ao mesmo tempo. Três frentes merecem atenção imediata: 1. Deixar claro quem decide o quê. Mapear as decisões recorrentes e definir, para cada uma, quem decide, quem precisa ser consultado e quem só precisa ser informado. Alçadas e papéis bem definidos eliminam boa parte das consultas desnecessárias. A maioria das decisões do dia a dia é reversível e pode ser tomada perto de quem executa. As irreversíveis e estratégicas, essas sim, merecem subir. 2. Desenvolver o líder para delegar, e não apenas para fazer. Delegar é uma competência, e ela precisa ser treinada. Envolve contextualizar, definir o resultado esperado, combinar pontos de acompanhamento e resistir à tentação de assumir a tarefa de volta no primeiro tropeço. O papel do gestor muda: ele deixa de ser quem dá todas as respostas e passa a ser quem faz as perguntas certas. 3. Tratar o erro como parte do aprendizado. Nenhuma equipe assume decisões num ambiente em que errar significa ser exposto. Construir segurança psicológica, com espaço para questionar, propor e errar dentro de limites combinados, é o que transforma a autonomia que está no papel em autonomia real. O teste das férias Um exercício simples ajuda a medir o grau de autonomia de uma área: o que acontece quando o gestor sai de férias? Se as decisões param, se o celular dele toca todos os dias, se os projetos esperam a volta dele, a empresa não tem um líder. Tem um ponto único de falha. Empresas que crescem de forma sustentável são as que conseguem multiplicar a capacidade de decisão. Isso exige estrutura clara, líderes preparados para desenvolver pessoas e uma cultura que dá espaço para agir. É esse trabalho, que conecta estratégia, liderança e cultura, que faz a autonomia deixar de ser discurso e virar resultado. A pergunta que fica não é se a sua equipe está pronta para decidir mais. É quanto a sua empresa está deixando de crescer enquanto espera pela próxima aprovação. Fontes dos dados citados • McKinsey & Company. Decision making in the age of urgency (2019). Pesquisa com mais de 1.200 gestores de empresas globais. • Blenko, M.; Mankins, M.; Rogers, P. Decide & Deliver: Five Steps to Breakthrough Performance in Your Organization. Bain & Company / Harvard Business Review Press, 2010. • Wheatley, D. Autonomy in Paid Work and Employee Subjective Well-Being. Work and Occupations, 2017 (Universidade de Birmingham).