Por Ricardo Missel
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1 de julho de 2026
Existe um paradoxo silencioso acontecendo dentro das empresas em 2026, e a maioria dos RHs ainda não o colocou no radar: as pessoas em posições de liderança são, ao mesmo tempo, as mais engajadas e as mais esgotadas da organização. Não é uma contradição teórica. É o que os dados mais recentes do mercado de trabalho global estão mostrando, e ignorar esse sinal pode custar caro — em saúde, em retenção de talentos-chave e em performance. O relatório State of the Global Workplace 2026, da Gallup, uma das pesquisas mais respeitadas do mundo sobre o tema, traz um retrato que deveria acender um alerta em qualquer comitê executivo. Segundo o levantamento, líderes apresentam os maiores níveis de engajamento e bem-estar entre todos os níveis hierárquicos — mas também relatam, de forma consistente, mais estresse, mais raiva, mais tristeza e mais solidão no dia a dia do que os demais colaboradores. Lideranças também são menos propensas a relatar momentos de leveza, como rir ou sorrir bastante durante o dia, em comparação com quem está na ponta operacional. Em outras palavras: o cargo de liderança entrega sentido e protagonismo, mas cobra um preço emocional alto demais — e esse preço, na maioria das empresas, segue invisível até o momento em que o líder pede demissão, adoece ou simplesmente passa a liderar no automático. O problema não é exatamente novo. O que mudou é a escala. A mesma pesquisa aponta que o engajamento de gestores no mundo caiu de forma acentuada nos últimos anos, com queda mais forte justamente entre 2024 e 2025. Gestores deixaram de ter a vantagem de engajamento que historicamente tinham sobre os demais colaboradores. Isso significa que a liderança intermediária — aquela camada que sustenta o dia a dia operacional e emocional das equipes — está chegando ao limite, e a queda nos índices não é um soluço passageiro: é uma tendência. Por que isso interessa diretamente a quem está à frente de pessoas e de cultura organizacional? Porque o mesmo estudo identifica algo decisivo: nas organizações classificadas como de melhores práticas — aquelas que investem deliberadamente na estrutura relacional e cultural do trabalho — o engajamento de gestores chega a ser quase quatro vezes superior à média global. Ou seja, a diferença entre uma liderança exausta e uma liderança plena não está apenas na resiliência individual de cada gestor. Está, em grande parte, no ambiente, na cultura e no suporte estrutural que a empresa oferece a quem lidera. Esse é exatamente o ponto onde a conversa deixa de ser sobre indivíduos e passa a ser sobre desenho organizacional. Durante décadas, tratou-se a resiliência de líderes como uma questão de caráter: alguns aguentam a pressão, outros não. Os dados de 2026 sugerem outra leitura, mais honesta e mais útil: a capacidade de um líder sustentar clareza, empatia e energia sob pressão depende diretamente do quanto a organização investe em prepará-lo, apoiá-lo e desenvolvê-lo continuamente — não apenas no momento da promoção, mas ao longo de toda a trajetória. Isso explica por que processos como Academia de Líderes, coaching executivo e programas estruturados de desenvolvimento de lideranças deixaram de ser um diferencial e passaram a ser uma necessidade estratégica. Não se trata de oferecer um curso pontual sobre comunicação ou gestão de conflitos. Trata-se de construir, de forma deliberada, a infraestrutura emocional e comportamental que sustenta um líder ao longo do tempo — antes que o esgotamento o tire de cena. Três frentes concretas merecem atenção imediata de quem lidera pessoas e processos de RH: A primeira é repensar o suporte contínuo, e não apenas o treinamento pontual. Um workshop de liderança de dois dias tem efeito limitado se o líder retorna, na segunda-feira seguinte, para o mesmo volume de cobranças, sem espaço de reflexão e sem alguém para processar decisões difíceis. Modelos como coaching executivo de acompanhamento contínuo e mentoria entre pares têm se mostrado mais eficazes justamente porque sustentam o desenvolvimento no tempo, e não apenas no momento do evento. A segunda é tratar a energia emocional do líder como um indicador de gestão, não como um detalhe pessoal. Empresas que monitoram sinais de exaustão, sobrecarga e isolamento em suas lideranças — da mesma forma que monitoram metas e indicadores financeiros — conseguem agir antes da crise. Isso exige instrumentos de avaliação que vão além da percepção subjetiva do RH, permitindo identificar com mais precisão como cada líder está reagindo à pressão e quais fatores estão drenando sua energia. A terceira é reconhecer que liderar bem, hoje, exige uma combinação de habilidades que poucas gerações de gestores foram formalmente preparadas para desenvolver: regulação emocional sob estresse, comunicação empática em cenários de incerteza e capacidade de manter consistência mesmo quando os resultados não vêm como esperado. Isso não nasce pronto. Constrói-se com método, prática deliberada e, frequentemente, com apoio profissional especializado. Há ainda um ponto frequentemente negligenciado: o impacto da liderança esgotada se propaga rapidamente pela equipe. Um gestor que opera no limite tende a se comunicar de forma mais transacional, a ter menos paciência para ouvir, e a tomar decisões mais reativas do que estratégicas. O resultado é um efeito cascata — a exaustão do líder se transforma, silenciosamente, em desengajamento de toda a equipe. Por isso, investir no desenvolvimento de líderes não é mais uma ação isolada de RH voltada a um pequeno grupo de altos potenciais. É uma estratégia de proteção organizacional. Empresas que tratam seus líderes como ativos a serem desenvolvidos com a mesma seriedade com que tratam qualquer outro investimento estratégico estão, segundo os próprios dados do mercado, construindo uma vantagem competitiva real — não apenas em clima organizacional, mas em performance sustentável. O recado dos dados de 2026 é direto: liderar continua sendo uma das posições mais significativas dentro de uma organização, mas também uma das mais desgastantes quando exercida sem suporte adequado. A pergunta que toda empresa precisa se fazer não é mais se vale a pena investir no desenvolvimento de seus líderes. É: por quanto tempo ainda é possível adiar esse investimento sem pagar um preço muito mais alto por isso.